4 semanas atrás
Plano para transformar Itaipu em polo de tilapicultura divide governo e especialistas
O governo brasileiro estuda viabilizar a criação de até 400 mil toneladas de tilápia no reservatório de Itaipu, proposta que tem gerado forte debate por envolver a introdução de uma espécie exótica em um dos maiores lagos artificiais do país. Especialistas alertam para riscos ambientais, enquanto o projeto enfrenta entraves políticos e jurídicos.
Para sair do papel, a iniciativa depende da revisão do Acordo Bilateral Brasil–Paraguai, que atualmente proíbe o cultivo de espécies exóticas no reservatório compartilhado. Além disso, qualquer mudança precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional, etapa que, até o momento, não tem tramitação em curso.
Do lado paraguaio, uma lei sancionada em 22 de dezembro abriu caminho para a criação de espécies exóticas em corpos d’água fechados e semiabertos, removendo barreiras legais internas. Apesar disso, o acordo que rege Itaipu segue como o principal limitador para a produção em larga escala no lago binacional.
Com cerca de 1.350 km², o reservatório de Itaipu já atende a múltiplas funções, como geração de energia, armazenamento de água, sedimentação e atividades produtivas. É nesse contexto que a possibilidade de instalar tanques-rede para tilapicultura tem concentrado críticas de biólogos e ecólogos.
Especialistas apontam que o maior risco está no escape de peixes, comum em sistemas de cultivo aberto. A tilápia é considerada uma espécie invasora, com alta capacidade de adaptação e reprodução, podendo competir com peixes nativos, alterar ecossistemas conectados ao reservatório e até alcançar áreas de preservação.
Outros impactos citados incluem o aumento de nutrientes na água, favorecendo organismos invasores como o mexilhão-dourado, além do risco de introdução de parasitas e patógenos. Relatórios científicos nacionais já associam a tilápia a diversos impactos ambientais em ambientes aquáticos.
Itaipu afirma que a criação não comprometeria a geração de energia e defende a adoção de protocolos de controle, como monitoramento ambiental, estruturas reforçadas e manejo sanitário. Pesquisadores, porém, sustentam que o risco zero é inalcançável em sistemas abertos, e que a decisão final dependerá do peso dado aos alertas ambientais diante das pressões econômicas e políticas.
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