15/05/2018 08h26 - Atualizado em 15/05/2018 08h26

Violência amplia isolamento de Israel

A reação brutal contra os protestos e a morte de palestinos em Gaza prejudica a agenda internacional do primeiro-ministro Bibi Netanyahu

Por: Redação/G1
 
 
Palestinos correm para se proteger de bombas de gás atiradas por tropas israelenses na fronteira entre Gaza e Israel após protestos contra a inauguração da embaixada dos EUA em Jerusalém Palestinos correm para se proteger de bombas de gás atiradas por tropas israelenses na fronteira entre Gaza e Israel após protestos contra a inauguração da embaixada dos EUA em Jerusalém

O Hamas, misto de partido político, movimento religioso e grupo militar que controla a Faixa de Gaza, atingiu seu objetivo: estragou a festa de inauguração da nova embaixada dos Estados Unidos em Israel e a agenda diplomática do premiê israelense, Bibi Netanyahu.

As manifestações que vêm sendo convocadas há oito semanas e deverão continuar hoje – data em que a população palestina relembra a expulsão de suas terras por Israel há 70 anos, episódio conhecido como Nakba – culminaram ontem com a morte de quase 60 palestinos. Desde março, os mortos chegam a 100.

Resultado: uma onda internacional de repúdio à violência do Exército israelense para conter a marcha que violava a cerca que separa Israel de Gaza. Anistia Internacional, Nações Unidas, governos europeus condenaram a brutalidade da reação. Turquia, África do Sul chamaram seus embaixadores em Israel de volta para consultas.

A inauguração da embaixada americana em Jerusalém – na verdade, o decerramento de uma placa posta sobre um antigo edifício consular – não passa de um pretexto para um roteiro conhecido e previsível que, a cada repetição, suscita a mesma pergunta: como não conseguem evitar?

Gaza vive uma situação de penúria. A população vive submissa ao jugo duplo da ocupação israelense e do governo islâmico do Hamas. Desemprego crônico, fome e uma situação humanitária lastimável formam o caldo de cultura ideal para a manipulação política.

Os protestos de ontem foram organizados em cinco lugares perto da fronteira. A mecânica é a mesma. A pé, a bordo de ônibus ou motos, os manifestantes chegam às proximidades da cerca, uma área com barracas, centros religiosos e hospitais de campanha. Líderes conclamam jovens e adolescentes a cruzar a primeira barreira de arame farpado, em desafio aos alertas do Exército israelense de que atiraria. Nos 300 metros que separam a barreira da cerca principal, irrompe a batalha.

Do outro lado, a força é brutal. Os soldados israelenses, na mesma faixa etária que os manifestantes palestinos, estão armados com fuzis, bombas e contam com o apoio de tanques e da infantaria. As regras de combate do Exército lhes dão o direito de atirar contra quem ameace com pedras, pedaços de madeira ou tochas. Tanto os israelenses quanto os americanos atribuem as mortes à provocação deliberada do Hamas.

Evidente o contraste entre as massas palestinas lançando pedras contra soldados armados e a celebração dos governos Donald Trump, Bibi Netanyahu e simpatizantes na inauguração da embaixada em Jerusalém. Evidente, também, que aquels que participavam da cerimônia, entre eles o casal Ivanka Trump e Jared Kushner, não estavam nem aí para a situação dos palestinos em Gaza ou para o impacto das mortes na opinião pública internacional.

Tanto Trump quanto Bibi acreditam na política de "fatos no chão": construir nos territórios ocupados, erguer muros e cercas de proteção, trazer embaixadas para Jerusalém, reagir com dureza contra qualquer rebelião e levar a população de Gaza à míngua, para forçar a queda do Hamas e a sujeição das lideranças palestinas aos ditames israelenses se quiserem negociar.

É uma estratégia que desfruta enorme popularidade na população israelense, vítima de ataques terroristas e alvo de foguetes oriundos de Gaza. Do ponto de vista militar, Bibi conseguiu nos últimos dez anos transmitir uma impressão de maior segurança ao público interno.

No campo diplomático, encontrou no governo Trump uma alma gêmea que, além de trazer a embaixada a Jerusalém, realizou seu sonho de romper o acordo nuclear com o Irã. Nem as denúncias de corrupção afetam a popularidade de Bibi. Até a vitória da cantora israelense Neta Barzilai no concurso Eurovision contribui para inflá-la.

Fora de Israel, a situação é mais complicada. Bibi se isolou na política americana. Não havia um único democrata na inauguração da embaixada em Jerusalém – lá estavam, contudo, dois pastores de grupos cristãos messiânicos, conhecidos por declarações antissemitas. A comunidade judaica americana está rachada no apoio a Israel.

A revogação do acordo com o Irã também ampliou o fosso diplomático que separa Israel da Europa. Para piorar, Bibi aproximou-se do russo Vladimir Putin, que também tem interesse em conter as ambições iranianas na Síria. Vê o Irã como principal ameaça e se prepara para uma guerra aberta em território sírio. Precisará de apoio internacional para sustentar uma campanha militar que promete ser longa. Com o desprezo pela situação em Gaza e a violência contra os palestinos, só terá o de Trump e seus acólitos.


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