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Lavoura acesa

01 de March de 2010 às 12:52
Em época de crise ambiental e mudanças climáticas, a indústria fumageira multinacional predominante no Brasil entra em 2010 alinhada com a globalização politicamente correta.

 A mudança é sutil, mas para bom entendedor basta a troca de palavras. Ainda que os produtores continuem dizendo que seu negócio é plantar fumo, os exportadores fazem questão de vender... tabaco. Não por coincidência, em novembro de 2008 o SindiFumo transformou-se no SindiTabaco

FUMICULTOR limpa plantação de tabaco em Santa Cruz do Sul, RS. Apesar dos problemas associados, a lavoura prospera

Nada de novo no front internacional, em que sempre imperou a palavra "tobacco". Porém, nas bases de produção do Brasil, segundo maior produtor do mundo, só superado pela China, vive-se um novo momento, marcado pela necessidade de limpar a barra de um produto estigmatizado por décadas de descuidos socioambientais. Definitivamente, a indústria tabaqueira busca livrar-se do vínculo com os agrotóxicos, cujo emprego abusivo viola não apenas o equilíbrio do meio ambiente, mas afeta até a alma dos produtores rurais, gerando mal-estar e depressão.

HÉLIO, CLACI e o filho Cristiano Sehn: em 27 anos, eles continuam com cinco hectares, mas o tabaco lhes deu casas, carros e três tratores para prestar serviços aos vizinhos

Segundo a dúzia de empresas que domina a cadeia produtiva do tabaco no Brasil, o uso de venenos agrícolas na fumicultura caiu drasticamente nos últimos oito anos - de 6,6 quilos do ingrediente básico por hectare para 1,1 quilo por hectare -, mas falta o público tomar conhecimento disso. A aplicação de inseticidas e fungicidas foi reduzida não só para evitar dano ambiental ou desperdício de insumos, mas para atender às exigências dos consumidores estrangeiros - eles se recusam a pitar resíduos de substâncias banidas em seus países e que interferem na qualidade final dos cigarros. Além disso, a indústria desenvolveu sementes mais resistentes a doenças e pragas. E sem transgenia, informa a agrônoma Andréa Brondani da Rocha, pesquisadora da estação de sementes da Universal Leaf, em Rio Pardo, RS.

Há, também, o problema da fumaça. Problemão. Nas últimas duas décadas, o cigarro foi banido de quase todos os ambientes públicos fechados em inúmeros países e cidades. Nas empresas, os fumantes são segregados, reprimidos e discriminados. Nunca o cigarro foi tão mal visto. Os anúncios foram varridos da TV, do rádio e da imprensa. Nas próprias embalagens os cigarros são obrigados a levar mensagens sinistras sobre os danos que causam à saúde de seus usuários. Por conta de tantas restrições, o SindiTabaco estendeu o cachimbo da paz a todos os seus interlocutores. Com apenas 12 sócios, é o menor sindicato do Brasil, mas responde por uma receita anual de cerca de três bilhões de dólares, obtida com a exportação de 85% da produção nacional . Sucesso em mais de 100 países, o produto brasileiro perdeu terreno por aqui. Os fumantes já foram 30% da população, hoje mal passam dos 17%. Até mesmo nos tabacais não é fácil encontrar quem fume.


Apesar de tudo que se diz e se sabe sobre os males do vício, 1,3 bilhão de tabagistas continuam mandando brasa na Terra. Uma antiga previsão de queda do vício foi revista recentemente. Segundo pesquisa da Organização Mundial de Saúde, o crescimento do consumo de cigarros elevará o número de fumantes para 1,5 bilhão em 2050. Que fazer se quase 20% da população mundial é viciada em nicotina? Disposta a ganhar esse mercado, a indústria fumageira esforça-se para oferecer tabacos de baixos teores de alcaloides e outras substâncias nocivas à saúde humana. Pressionado por campanhas em favor da saúde dos agricultores, sujeitos a intoxicação por agrotóxicos e pela nicotina emitida pelas plantas em crescimento, o governo brasileiro criou um programa para ajudar os tabacultores a trocar a Nicotiana tabaccum por outras lavouras. Até agora os resultados foram pífios. Milhares trocaram a roça, isso sim, pela cidade, mas, nos últimos 20 anos, 70 mil novos agricultores aderiram à tabacultura, lavoura conduzida praticamente sem mecanização, tanto que metade de seus custos é representada pela mão de obra.


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