Cisternas deixam o semiárido mais verde
Programa para armazenamento de água das chuvas livra pequenas propriedades nordestinas do desabastecimento
Dá gosto ver o brilho nos olhos da agricultora Bernadete Campos Vasconcelos, 49 anos, quando ela recebe algum visitante em sua casa, na pequena propriedade rural da comunidade de Tatauí 4, em Sobradinho, norte da Bahia. Afinal de contas, não é todo mundo que pode dar-se ao luxo de servir um café da manhã à sombra de um umbuzeiro centenário.
Mas a árvore não é o único motivo de orgulho da agricultora e de sua família. Ao passear pela propriedade - onde vive com a mãe, o filho Alex, mais a nora e três netas - dona Bernadete vai mostrando como tudo ali é verdinho. Nem parece que se está em pleno semiárido nordestino, região marcada pela forte insolação e por chuvas escassas.
O terreno, de 100 hectares, é ocupado por uma variedade de culturas: macaxeiras, coentro, feijão, milho, sorgo, couve, batata-doce, cebolinha, tudo florescendo em seu devido tempo. Já a criação de cabras e ovelhas é confinada numa área de 55 hectares.
E dizer que, até pouco tempo atrás, o local era uma tristeza. Na época, no período de chuvas - o "inverno" local -, aguardado para começar lá pelo mês de dezembro, mas que muitas vezes demora para chegar, desta terra só brotavam mirrados pés de milho e feijão. A criação era, como diz o sertanejo, do tipo "sanfona". As cabras e ovelhas ganhavam um pouquinho de peso no inverno, para definhar completamente nos meses de seca brava. Muitos animais morriam pelo caminho. "A água só chegava uma vez por mês, em caminhões-pipa. Não dava para quase nada."
Programa Uma Terra e Duas Águas
O que está acontecendo hoje em dia na roça de dona Bernadete não é um caso isolado. Trata-se de um resultado, bem-sucedido, do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2) desenvolvido pela Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA), rede formada por centenas de entidades da sociedade civil que, em linhas gerais, propõe a convivência racional com o semiárido por meio da promoção e implementação de políticas públicas adequadas à região.
Na verdade, o P1+2 é uma extensão do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), projeto também gerido pela ASA a partir de julho de 2003, com o objetivo de beneficiar cerca de cinco milhões de nordestinos, oferecendo água de qualidade para consumo humano, captada das chuvas por meio de calhas instaladas nos telhados das casas, e armazenada em cisternas com capacidade de 16 mil litros.
O "P1" do Uma Terra e Duas Águas - implementado em 2007, com a instalação de unidades-piloto em pequenas propriedades rurais de vários estados nordestinos - significa garantia de acesso a terra aos agricultores. O "+2" representa os dois tipos de água que o sertanejo necessita para sobreviver: uma para consumo humano e outra para produção de alimentos.

"Para se beneficiar do P1+2, o agricultor precisa ter em sua propriedade a cisterna doméstica", explica José Carlos dos Santos Néri, um dos instrutores do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), ONG sediada em Juazeiro, BA, responsável pela coordenação do programa na região.
Como na propriedade de dona Bernadete já havia uma cisterna doméstica, ela foi incluída no P1+2, com a construção de uma cisterna do tipo "Calçadão", que acumula a água da chuva numa estrutura de cimento de 220 m2, e a armazena numa cisterna com capacidade para 52 mil litros. A água é utilizada no cultivo de frutas, hortaliças e para matar a sede da criação.
José Carlos, o técnico do Irpaa, garante que as famílias participam ativamente da construção das cisternas e recebem treinamento para aproveitar a água de maneira ecológica e sustentável.
Na realidade, nem tudo corre às maravilhas no programa. 'Para evitar a contaminação e preservar a qualidade da água, a cisterna necessita de um manejo adequado', ressalta a engenheira agrícola Luiza Teixeira de Lima Brito, da Embrapa Semiárido, em Petrolina, PE. Mas nem sempre isso acontece. Em alguns casos, os agricultores usam baldes ao invés da bomba manual da cisterna, instalada ali justamente para evitar o contato direto com a água e sua contaminação.

Já o presidente da Associação Brasileira de Captação e Manejo da Água de Chuva (ABCMAC), Johann Gnadlinger, argumenta que, dos 2 milhões de estabelecimentos agrícolas familiares existentes no Nordeste, cerca de 90% possuem menos de 100 hectares. Ele observa ainda que dos 969 mil km2 do semiárido brasileiro, 368 mil km2 pertencem à Depressão Sertaneja. Segundo ele, nessa área, para uma exploração minimamente rentável e sem dano ao meio ambiente, uma família necessitaria dispor de, pelo menos, 300 hectares.
Ainda assim, as cisternas têm provocado uma verdadeira revolução em pequenas propriedades nordestinas. Na de dona Bernadete, como conta seu filho Alex, a novidade agora são os chamados "canteiros econômicos". Medindo cerca de 8x5 metros, eles apresentam lonas plásticas a uns 25 centímetros de profundidade. Essa tecnologia simples permite um melhor aproveitamento da água armazenada na cisterna, que é despejada nos canteiros por meio canos enterrados no solo, evitando, assim, a evaporação.
"Tudo é tratado com adubo orgânico, que nós mesmos preparamos", diz dona Bernadete. "O coentro a gente já está vendendo para o dono de uma quitanda, em Sobradinho", prossegue. Dinheirinho extra, sim senhor.

